Volta dos investimentos: biocombustíveis deixam de representar custo extra e passam a trazer ganho econômico mundial

Trabalho tenta desmistificar a noção de que crescimento econômico e descarbonização seguem caminhos opostos. A redução dos custos e a popularização podem tornar as energias renováveis mais vantajosas economicamente que suas contrapartidas fósseis. No Brasil, a cana-de-açúcar é a fonte energética com maior potencial de geração de renda e empregos.

 

 

A mitigação das mudanças climáticas por meio do desenvolvimento das energias renováveis resultaria em benefícios macroeconômicos, segundo a Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena). Em um estudo assinado em parceria com a Agência Internacional de Energia (IEA), a entidade tenta desmistificar a noção de que crescimento econômico e descarbonização seguem caminhos opostos.

“O mundo está enfrentando uma necessidade urgente de descarbonização. Ao mesmo tempo, muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento estão sofrendo com um crescimento lento da economia e com altas taxas de desemprego”, aponta a agência, como quem desvenda uma oportunidade de bons negócios.

No Brasil, a maior parte do potencial de geração de empregos surge com o cultivo de matérias-primas e com a geração de bioeletricidade. Dessa maneira, esses ‘bons negócios’ podem representar um caminho lucrativo para o setor energético.

Ainda assim, a Irena admite que estudos anteriores de outras organizações apontaram impactos econômicos negativos relacionados à descarbonização. Contudo, acredita que esses dados podem estar desatualizados. Segundo o estudo, os próprios autores dessas conclusões agora ponderam a possibilidade de resultados positivos, especialmente considerando a diminuição nos custos e a melhor performance das tecnologias.

“Avanços tecnológicos rápidos em renováveis estão realmente acontecendo e, em muitas circunstâncias, os renováveis estão se tornando a fonte mais barata de energia – uma tendência que deve continuar no futuro”, Irena

Com esse e outros fatores, a expectativa é de uma mudança no pensamento tradicional sobre a relação entre crescimento econômico e descarbonização. “Há evidências crescentes de que a mitigação das mudanças climáticas por meio de energias renováveis pode efetivamente levar a impactos econômicos positivos, estimulando crescimento e empregos pelo mundo”, afirma.

Tendência renovável

Essas evidências mencionadas, de acordo com a IEA e a Irena, são ainda mais evidentes em países do G20 – fórum internacional formado por 19 países e pela União Europeia –, com destaque para Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, França e Brasil.

Para as duas agência, há um grande apelo por políticas intervencionistas para a redução da emissão de gases de efeito estufa que possam, simultaneamente, impulsionar a economia.

Juntos, os países do G20 possuem 98% de toda a capacidade mundial de geração de energia eólica, 96% de energia solar e 94% de nuclear, além de representarem quase 95% da frota mundial de veículos elétricos. “Enquanto os países do G20 representam a maior demanda de energia e a maior quantidade de emissões de gases de efeito estufa relacionada, eles também possuem um papel integral no combate às mudanças climáticas”, aponta o estudo.

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Com isso, segundo IEA e Irena, esses países já vêm demonstrando um movimento em direção a um setor energético de baixas emissões. Na maioria dos países do G20, o crescimento do PIB não foi acompanhado por um aumento igualmente intenso da demanda energética, refletindo mudanças na estrutura econômica, efeitos de saturação e ganhos de eficiência.

Como exemplo, o estudo cita Japão, Europa e Estados Unidos, que tiveram seus picos de consumo energético em 2004, 2006 e 2007, respectivamente. Desde então, os dois primeiros tiveram uma redução de 15% na demanda, enquanto os EUA o decréscimo foi de 5%.

“Para países de fora do G20, a relação entre consumo energético e crescimento econômico permanece forte. Entre 2000 e 2014, em média, para cada 1% de aumento no PIB, a demanda por energia cresceu 0,6%”, aponta as agências.

Ainda de acordo com o relatório, as melhoras na demanda energética em relação à economia global, aliada ao crescimento de energias limpas ao redor do mundo, apoiaram um desaceleramento nas emissões de CO2 relacionadas a energia. “Em termos globais, o crescimento das emissões se estancou em 2014 e 2015, mesmo em meio à expansão econômica. Em casos anteriores em que as emissões permaneceram estáveis ou caíram em comparação com o ano anterior, elas foram tipicamente associadas à fraqueza econômica global”, completa.

Ou seja, está passando o tempo em que desenvolvimento econômico e poluição atmosférica poderiam ser considerados causa e consequência.

Potencial de crescimento para energias renováveis

IEA e Irena apontam que a produção e o uso de energia representam mais de 65% de todas as emissões de gases de efeito estufa feitas pelo homem, sendo que a maior parte é formada por CO2. Isso reflete a alta dependência do setor em relação aos combustíveis fósseis, de modo que o aumento na demanda por energia foi consistentemente acompanhado por aumentos nas emissões de CO2.

“Entre os países do G20, o Brasil tem a mais alta participação de combustíveis de baixas emissões em seu mix primário de energia, com aproximadamente 40%”, IEA e Irena

A consequência lógica é que a redução nas emissões de gases depende fortemente de mudanças e novos desenvolvimentos no setor de energia. Para isso, as agências acreditam que os países do G20 são essenciais e precisam enfrentar o desafio. “Como um grupo, o G20 corresponde a aproximadamente 80% da demanda primária de energia mundial, incluindo quase 95% da demanda de carvão e quase 75% da demanda por gás e petróleo”, alegam.

Levando isso em considerando, a Irena é incisiva em seu relatório: “Todos os países têm oportunidades para aumentar a quantidade de energia renovável, indo além do cenário de referência”. Com isso, a agência se refere a um cenário calculado com base nas contribuições nacionais determinadas (NDCs), estabelecidas pelos países durante a Cop-21, e nas políticas energéticas já estabelecidas.

“Os principais países do G20 em termos de total de uso de energia renovável – Brasil, China, Índia, Indonésia e Estados Unidos – devem responder à metade do uso global de energias renováveis em 2050”, Irena

Esse potencial é representado em um segundo cenário, determinado com base nas tecnologias de energia renovável disponíveis para geração e para aproveitamento de matérias-primas, na eficiência energética dessas tecnologias e na capacidade de melhoria dessa eficiência, na capacidade da indústria de captura e armazenagem de carbono e na eficiência das tecnologias de reciclagem.

Ainda que o Brasil seja o país com o maior uso de energias renováveis no cenário de referência, com mais de 40% de participação dessas fontes já em 2030, os cálculos da Irena mostram que o potencial do país poderia ultrapassar a marca de 80% até 2050. O potencial do G20 como grupo é de 63%.

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“Mesmo que cada país tenha o potencial de adicionar energias renováveis para além do cenário de referência, os principais países do G20 em termos de total de uso de energia renovável – Brasil, China, Índia, Indonésia e Estados Unidos – devem responder à metade do uso global de energias renováveis em 2050”, complementa.

“Isso significa que as decisões de poucos países são críticas para o sucesso da aceleração global das energias renováveis. Mas, sozinhos, esses países não serão capazes de colocar o mundo em uma trajetória que limite o aquecimento das temperaturas globais em 2°C”, IEA e Irena

Mais energia e mais empregos

Considerando o cenário de potencialidades, a Irena aponta que a energia solar pode gerar 7 milhões de empregos até 2030 e 9 milhões até 2050. Em segundo lugar estaria a bioenergia (que inclui cultivo de matéria-prima e geração de energia) também empregaria 7 milhões de pessoas em 2030, chegando a 8 milhões em 2050. Na sequência, estariam as usinas hidroelétricas (6 e 5 milhões) e as unidades eólicas (3 e 4 milhões).

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O Brasil se destaca nesse cenário, aparecendo ao lado de China, Índia e Estados Unidos, como um dos países com maior potencial de geração de empregos, especialmente dentro do setor sucroenergético. “O Brasil também se posiciona entre os cinco maiores empregadores – com quase 2,5 milhões em 2050 – devido ao seu setor de bioenergia, consistindo basicamente de colheita de matéria-prima e processamento”, complementa o relatório.

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Mas ainda há um grande desafio pela frente. A princípio, o atual mix energético do G20 como um todo depende fortemente de carvão (34%), petróleo (29%) e gás (19%). As matérias-primas renováveis – onde a cana-de-açúcar está incluída – representam aproximadamente 12%, sendo que a bioenergia apresenta a maior participação (8% no mix total, com mais da metade sendo pelo uso tradicional da biomassa sólida).

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Renata Bossle – novaCana.com